Saturday, June 6, 2009

A cidade desnuda-se, transfigura-se






Autora: Helena Conserva

Cheguei hoje a Serra Talhada, 28 de julho de 2001. A cidade está mais linda do que nunca. O tempo mudou, literalmente. Não chega a fazer frio, seria querer demais, mas exibe uma atmosfera de paz e equilíbrio, nem quente nem frio, estável. Nesta manhã, na casa de meus pais, encontrei uma ponta de mim que ficou esquecida num canto qualquer da sala de estar, há dez anos desde quando fui embora. É aqui que reencontro o meu passado, que choro e que sorrio daquela época, tempos difíceis quando a gente tem que entender que nem tudo pode inscrever-se com a tinta dos nossos querer. A verdade tem que ser conquistada, mas eu, eu não tinha essa lucidez... a cidade me amadureceu e disse quem eu era. Eu não era quem pensava que fosse nem quem pensavam que eu fosse. Era eu alguém além de mim e a cidade me expeliu, mas ela ainda não era telúrica, não possuía ainda seus jardins, nem seus parques, nem sua educação primorosa. Os serra-talhadenses ainda não eram destaque no Brasil e no mundo. Ainda não era nem prelúdio desta expressão artística, desta inventividade popular. Não. Nesta época era simplesmente uma cidadezinha tomada pelos falares dos olhos da sua gente. A cidade mostrou meus limites e eu entendi minha condição de oprimida e todas as regras da sociedade patriarcalista e as tantas outras, também foram compreendidas por mim. Em meio às caatingas nordestinas eram regras de mão única. Nada podia ser feito nem ninguém podia fazer nada, tínhamos que aceitar a condição... não lutar pelos seus direitos, os direitos que me assistem e me cabem e me são negados a toda hora, a todo instante e, ainda são, desde então. Não foi a decisão de sair vida a fora que mudou alguma coisa. O nosso universo ainda é masculino. Mas agora, consigo pelo menos respirar. Foi tudo muito difícil porque eu já era mulher. Preciso também dizer que não foi da noite pro dia que fui mulher, nem nasci mulher, essa condição eu fui conquistando conforme me descobria, conforme perambulava aqui, alhures. Conforme a cidade me mostrava.
Mas, essa cidadezinha com pouco mais que setenta mil habitantes, incrustada no sopé de uma serra, no alto sertão de Pernambuco, lugar quente, seco, este é o meu lugar. Amo tanto o meu lugar seco e árido. Mesmo assim, com toda secura, vingamos. .
Serra Talhada é para mim um lugar de saudades, uma delas é de minha avó materna, Josefa Maria da Conceição, filha de Antônia Linda das Flores e de Manoel Bezerra da Silva. Ela nasceu no início do século XX, 1918, quando as mulheres viviam inspiradas no romantismo, “envolto um véu de tule bordado com ponto-cheio, uma toalha de renda e uma colcha de crivo. O véu significava a pureza, o casamento, a realização maior, a toalha da mesa a alegria de cozinhar para o seu homem, cuidar dele num misto de mãe e mulher. A colcha, a parte principal, onde na cama a pureza seria desfeita e junto dela a alegria de ter se guardado, o prazer de se dar”. Algumas fugiam, outras casavam com festas, outras sem, não importava, o que importava era o sonho romântico de casar, ter seu homem, sua casa, seus filhos, manter esse casamento a qualquer custo, era um padrão, uma imposição cultural. O sonho de toda mulher.
Por volta de 1937, quando mamãe nasceu no mesmo século, algumas mulheres já almejavam uma formação, de professora. Ser mulher era muito mais difícil. Graças a Deus eu não nasci nesse tempo, porque nunca me submeti a padrão nenhum e não me submeteria nem que tivesse que pagar com a própria vida.
No final do mesmo século, 1986, eu já era mulher, a minha cidade mantinha ainda o autoritarismo patriarcal e um código de ética a ser cumprido a risca, somente pelas mulheres, os homens não. O projeto de vida se tornava frustrante para muitas mulheres românticas que queriam apresentar para a sociedade um casamento perfeito, marido exemplar, mas, além de déspota o seu digníssimo também tinha a lógica fálica. Instintos para justificar. Nesse contexto, as mulheres achavam que falharam na escolha, que não tiveram sorte, então passavam a apostar no casamento das filhas. Queriam orientar às meninas a encontrarem o homem certo, já que elas não souberam escolher. Vinham as brigas, os desentendimentos porque as meninas queriam ter o livre arbítrio. A transgressão masculina virou regra de algumas sociedades, marca de macho, de virilidade, de instinto. Os homens têm que se sentirem homens ora! É preciso muita força e rebeldia excepcional para mudar essa lógica, ainda mais, porque ela é sustentada pelas mulheres. Criamos as regras da sociedade em que vivemos e lutamos por derrubá-la. Não aceito esse projeto de vida definido para a mulher sertaneja. Não aceito esta sentença brutal. Por isso violento a minha cultura nordestina. Sou cruel com meus princípios. Sou cruel mesmo, não consigo disfarçar. Neste sentido, dei muito trabalho a meus pais que planejaram pra mim um casamento perfeito, três filhos, a profissão de professora. Uma vida digna de dona de casa, mãe e esposa, comadre também. A cidade também esperava isso de mim, mas, eu não correspondi a esse ideal romântico, predestinado pela nossa cultura. Casar é vocação. Vocação de luta com intenção de manter até o fim. Nesse contexto, o casamento absorvido pela cultura já não importava mais, o que ele representava era mais importante. O casamento representava estabilidade. Representava a mulher de verdade, a que não fracassou, a que conseguiu casar e manter, muitas das vezes as aparências. A mulher separada e a solteira eram vistas como perdedoras infelizes. As separadas também representavam a chaga da destruição, das doenças, da vulgaridade, o feio, a lepra. Representava também ameaça. As separadas eram as excluídas, as párias da sociedade. A má sorte para uma mãe era ter a filha separada. Na maioria das vezes porque os parceiros arrumavam outra mulher. Essa outra era vista como uma vencedora pois conseguiu fisgar um marido e casar, casar era tudo. Casar era tirar a sorte grande. Era ter nome. Essa outra entrava para a sociedade porque agora tinha um homem, tinha nome, embora tenha usado meios ilícitos para fisgar esse homem, o que não importava. A outra, a ex, a que foi deixada, coitada, era agora uma leprosa, uma largada e seus filhos, “os bichinhos, os coitadinhos”, filhos de pais separados. Esse é um pequeno mundo que não me cabe, ainda mais porque estive no inferno e constatei que lá é melhor do que viver sob esse estigma. Encontrar a liberdade, debandar pela vida a fora sem saber o que me espera. A única saída para uma jovem mulher sem marido. Eu esperava poder ser quem eu era, uma mulher separada. Sendo eu própria, muitas vezes, ignorada para mim mesma, porque achava que as regras da sociedade que me punia, eram as que valiam. Precisava fugir da cidade, da pequenina cidade inflamada pelo preconceito, subjugada pela cultura. Eu estava decidida a sair com a minha lepra, contribuir para os meus, a felicidade de viver longe de mim, da ameaça que eu representava. Na Bahia, enxerguei uma luz tão forte, tão intensa, azulada, que protegi meus olhos com o antebraço. A luz me ofuscou. O carro entrou na claridade como que rasgasse aquele véu branco, incandescente e nós descemos dele porque não enxergávamos mais nada. Veio ao nosso amparo mãos de pessoas imaginárias que se dirigiram a mim, eram artistas. A brisa leve daquela manhã, entrou em minhas narinas revigorando todo o meu corpo. Senti alguém feliz além de mim.
Descobri meus valores, descobri os valores da minha cidade e, acima de tudo, descobri quem eu era, em outra cidade, em outro estado. Precisamente em Feira de Santana, no estado da Bahia. Daí o supremo valor do escritor, do poeta, do artista como transmissor de sentidos.O escritor é um investigador do escaninho dos seus próprios pensamentos e também dos seus sentimentos.Naquela ocasião, descobri as cidades.
A cumplicidade que há entre os estados da Bahia e de Pernambuco é intrínseca. Não só as estradas mas, as histórias se entrecruzam. Foram os vaqueiros da Casa da Torre de Garcia dÁvila que da Bahia iniciam o povoamento da região. Mais tarde, Agostinho Nunes Magalhães e seu irmão Joaquim e alguns colonos portugueses que cruzaram com os aborígines dando origem ao povoamento da zona do Pajeú. (LINS, 1957) (1)
Dois estados, Bahia e Pernambuco, que se distanciam no espaço físico e se unem pelas convergências históricas. Dois estados que se cruzam a todo instante como macho e fêmea no cio. Currais debrasileiro era falar de seca, gente faminta, êxodo, um quadro de homens, animais e plantas morrendo de inanição. Agamenon queria reverter essa situação e reverteu. Elaborou plano, traçou rumos. Queria justificar o novo regime com realizações que elevassem Pernambuco na Federação Brasileira. Um Pernambuco que viesse a ser sempre leão do Norte. 'Pernambuco não se deixará humilhar'. Era uma expressão que sempre usava.
Quanta honra pertencer à estirpe desse homem. O meu filho, Luiz Henrique Conserva Dias Parente, sendo descendente dos Parente das cidades de Salgueiro, em Pernambuco e de Barbalha, no Ceara, é descendente de Agamenon Magalhães. “D. Antonia Parente de Godoy, mãe de dr. Agamenon, era filha de Antonio Manuel de Godoy e de sua esposa D. Rosa Parente de Godoy, da família Parente de Salgueiro e de Brabalha” (WILSON, 1978) (5)

Lembranças não se perdem, desgastam-se

Toda essa crônica, a névoa do tempo, precisas lembranças, participamos dos detalhes... Escrever. Escrever a nossa história. Dos tempos de vovó, lembranças das noites em que o nosso imaginário era povoado por criaturas enigmáticas, de um mundo fantástico que vovó nos apresentava nas mais diversas histórias de troncoso. Os romances de cordéis que ouvíamos diversas vezes como se fosse a primeira vez. Um mundo de inventabilidade na minha imaginação se descortinava, “Zezinho e Mariquinha”, “A princesa da pedra fina”, “Coco Verde e Melancia ou Armando e Rosa”. Histórias de amores impossíveis pois, sempre o pai da moça, que no mais freudiano “complexo de Édipo”, fazia de tudo para impedir o amor dos dois. E nós, na expectativa de um desfecho positivo no final. Tinha também as narrativas picarescas que eram: “Canção de Fogo”, “João Grilo”, “Pedro Malazarte”, “Pedro Cem”, este de tudo possuía 100. Estes eram inquietos, aventureiros e espertos. Tiravam risos. Eram inesgotáveis de recursos de tramas. Nesse tempo Camões era Comange.
Quando cresci mais um pouco, das festas, algumas fotos do pastoril, partido vermelho e azul. Nessa época eu já saia sozinha de minha casa e perambulava pela feira-livre. Esse universo explica a nossa paixão pelo sertão e suas “coisas”, a paixão por escrever o nosso cenário multifacetado. E o mundo a nossa volta era pré-concebido, era de crendice, de raizada, de garrafada, de meizinha e eu fazia parte desse mundo. Quando meu filho era bebê, várias vezes mamãe indicava o caminho da casa da rezadeira, ficava perto da nossa. Meu filho acordava molinho, os olhos mortos, sem ânimo. Quebranto de mãe é o pior que tem. A rezadeira diagnosticava. Depois da reza ele sorria, ficava esperto, queria brincar.
Era comum encontrar pessoas mortas no dia de feira-livre. Um adjunto de gente se formava e quando do defunto derramava sangue, ouvia comentários de que o morto estava pedindo vingança porque estava vertendo sangue. Nesta época, muitas crianças morriam acidentalmente, vítimas de disparo de arma de fogo, muitas vezes manuseada por um irmão ou pelo pai. Neste caso não se constituía em crime, era “sucesso”. Dizia-se que foi um sucesso. Dizia-se que uma moça “sentou praça” ou “deu pra vida” e algumas fingiam que ainda eram virgens e dizia-se numa gesta de zombaria que, ela “tava só o oco e os caborés cantando dentro”. A cultura da honra, da virgindade era muito arraigada. Ainda este ano, 2007, em Serra Talhada, conversávamos entre família e minha prima dizia, que recentemente, a pouco mais de um ano, comprou um terreno onde havia ninhos de caborés, que eles faziam um buraco no chão redondo e bem profundo, era o ninho, então lembramos dessas alusões feitas por nossa gente, nascida da seiva popular. Não pode simplesmente se perder no tempo precisava desse registro.
As lembranças são saudáveis e cheias de saudades e vão se desgastando como a película de um filme.... Desbotando-se como roupa no varal... Lembro-me da Rua Enoque Ignácio de Oliveira quando se chamava Rua 15 de Novembro. Era na Rua 15 o tradicional desfile cívico de Sete de Setembro. Uma apoteose. Uma novidade para nossos olhos. Eu, meu irmão e minhas irmãs íamos, com nossa avó – era a única vez no ano que ela saia da nossa casa – íamos ver o desfile. A maioria das escolas e colégios da cidade se organizava em frente ao Ginásio Municipal Cônego Torres, depois, os pelotões já em ordem, desciam a Rua 15 de Novembro e encontravam outras escolas que se juntavam. O soar dos tambores tomava minha alma... Repercutia e vibrava em cada poro, em cada célula. A banda me fazia pensar, de onde vim? Pra onde vou? O que estou fazendo aqui? E o BOM! BOM! BOM! TRRRRA TA TA TA TA dos tambores e eu, filosofando. Um sobe e desce de pessoas, espectadores e atores daquele espetáculo. Meio-dia, tudo se desfazia e debaixo de um sol escaldante os pelotões seguiam desordenadamente para suas casa, e os espectadores também.
Lembro-me que na estação da linha ferroviária, onde tinha uma vila de casas, nos sábados de aleluia, um Judas de retalhos de panos velhos era confeccionado e na mesma ocasião, surrado e queimado. Na Vila da Estação, morava a minha professora de inglês, colega e amiga de mamãe, Dona Diva. Eu me escondia dela por que sempre fui uma péssima aluna, fraca e descomprometida.
Meu pai um dia levou serviço pra fazer em casa. Era noite, eu estava brincando, correndo com minha irmã e meu irmão por entre os cômodos da casa, quando, passando pela sala vi entre os papéis de meu pai espalhados sobre a mesa, uma máquina de escrever, enorme, imponente, parecia um bolo de aniversário. Parei no mesmo instante de correr. Eu estava encantada pois sonhava em usar uma máquina daquela. Sentei-me em frente e fiquei vendo meu pai manuseá-la com tanta agilidade. Sonhava em usá-la assim também. Pedi pra brincar, mas ele disse que aquilo não era para brincar. As horas passaram, meu irmão e minha irmã já haviam se recolhido, apenas minha mãe estava no sofá lendo livros de história do Brasil. Papai resolveu me dá uma oportunidade de manusear a tão sonhada máquina, mas eu vencida pelo sono, perdi a oportunidade quando ele colocou uma folha em branco, virou a máquina para minha direção e disse: bata aqui. Eu respondi: estou com sono, vou dormir. E sonhei que ele comprava pra mim uma máquina que eu não entendia, muito grande e com o teclado a parte e amarrado por baixo. Cresci com essa imagem. Hoje, lembro o computador que ele me deu anos atrás.
Final de semana, depois de uma chuva torrencial pela madrugada, fomos a um sítio da nossa família, eu e meu pai.
Mexer na terra após uma chuva é hilário. Nascem brotos e bichinhos inacreditáveis. Os brotos parecem miniaturas de bonsai e os bichinhos filhos de guinomos, extraterrestres e duendes. Nesse universo vejo um mundo além. Um mundo de sentidos só meu.
Quando voltamos para o almoço, encontrei na nossa casa um funcionário de meu pai que sempre me visitava. Almoçamos, depois, em conversa quis saber o que tem na roça. Tem vida, eu disse, tem arte, coisas que pertencem a alma. Tem o silêncio da ventania, tem a fala tosca da terra, tem a fala mansa e esperançosa da chuva que caiu ontem e fez lá uma grande festa. Todos vibram, plantas e bichos de tez iluminada. Todas as inspirações pulam da minha cabeça que quer dançar também, quer se materializar, no papel. Lá hoje tudo é festa. Nessa hora, meu pai passava por perto e ouviu parte da conversa e com ar de muita repreensão, disse balançando a cabeça negativamente, eu não vi nada disso lá não.
Mas eu vi. Eu vi com os olhos de lince. Eu vi com outros olhos que não enxergam. Essas imagens foram vistas e capturadas por um sentido além dos já existentes, um sentido que rastreia os sons do silêncio e desnuda-me pra você, que quero como leitor... ou como poeta...
Os sentidos da cidade somente existem porque existiu primeiro o meu sentido em relação a ela. Meus sentidos são o estremo entre a lucidez e a loucura.
As artes audiovisuais são vistas e ouvidas pela maioria das pessoas. Uma pequena parcela interpreta e outra menor ainda, senti. É sobre essa última que pretendo falar. A forma de sentir é uma arte. Vemos aquilo que queremos e vemos muitas vezes o que não queremos, como inesperadamente, andando pelas ruas podemos ver uma cena que não esperávamos ou uma pessoa que também não esperávamos. Pensamos no que vemos e também pensamos em coisas boas e ruins. Pensamos às vezes o indesejado, pensamos coisas que nos apavoram de certa forma. Num vernissage enxergamos o colorido, às nuanças, os estilos. Algumas pessoas interpretam de acordo com seus conhecimentos sobre arte, outras analisam estilos e outras sentem. O modo como deixamos nos conduzir pelas emoções grandes e pequenas, é uma forma de arte, é um dom, uma dádiva, uma graça divina, como queiramos definir. Nem todos têm dom para a música, uns têm para a pintura, outros para interpretação, outros para a produção literária e outros também o dom de sentir.


Viagens

Todos os anos viajo para Serra Talhada. Durante todos esse tempo, nunca esqueci minha gente, o meu lugar, minha rua, meus vizinhos, meus amigos. Mantive sempre contato com todos. Quando encontro uma chance, estou divulgando a minha cidade, seja em Feira de Santana ou em Salvador, nos encontros acadêmicos. Quando me dão oportunidade de falar e sempre me dão, minhas primeiras palavras são para dizer de onde vim e a que vim.
As minhas melhores intenções são para com a minha terra. Tudo que se refere a ela tem extremo valor pra mim, um valor supra-real, desde as festas grandiosas até os acontecimentos mais simplórios. Acompanhei com interesse muitos acontecimentos.
Em 12 de janeiro de 1999 recebi carta de Dierson com a cópia do discurso da posse de Inocêncio Oliveira à presidência da Câmara. No dia 17 de junho de 1999, Dierson me enviou uma cópia do Projeto Cultura Emygdio de Miranda. No ano seguinte, coincidentemente na mesma data, 12 de janeiro de 2000, ele me escreve dizendo que está encabeçando um movimento em prol da construção de um centro cultural com biblioteca pública, cine teatro, auditório, box para venda de artesanato e similares e espaço para exposição de artes. Na mesma carta ele também diz que acaba de criar o “O Villa Bella jorna”. Diz: “Um jornal inteiramente literário para divulgar a poesia da nossa gente, e que, quando fundarmos a academia de letras, este será o seu informativo literário (...) caso você queira publicar algum poema, pode enviar que eu cuido disso”.
A carta de Dierson do dia 01 de abril de 2001, ele me diz que o seu nome conseguiu vencer as adversidades e foi nomeado Presidente da Casa da Cultura. Os planos, ele diz, que são muitos, por enquanto está apenas fazendo levantamento do acervo, vendo o que está mal acondicionado, abre parêntese e diz que isto o deixou bastante triste, os roedores e mofos. Mandei emprestado um livro pra ele que ensina a preservar documentos antigos.
Em julho de 2003 o escritor e pesquisador Anildomá Willans e Cleonice sua esposa, me enviaram o folder da celebração do cangaço no Sítio Passagem das Pedras. A programação envolvia apresentação de grupos de Xaxado, de violeiros, repentistas, banda de pífano e grupo musical. Em abril de 2003 recebi convite para o “Primeiro Encontro Nordestino de Xaxado”. O folder apresentava Serra Talhada como a capital do xaxado. A programação englobava apresentação de grupos de xaxado e a banda de pífano de Campina Grande e a abertura foi com o cantor e compositor Rui Grudy, que interpretou “Nordestinação” do meu amigo Daudeth Bandeira (que escreveu a apresentação desse livrete) e palestras sobre as origens do Xaxado e a influência do cangaço na cultura popular, com o professor João Dantas e o pesquisador Anildomá Willans. Pouco tempo depois, recebi o convite para a festa de São João , “Sala de Reboco”, em homenagem ao Poeta Zé Marcolino. A festa começava no dia 21 de junho sábado, com a chegada do “Trem do Forró”, solenidade de abertura do São João de 2003. Show de fogos de artifícios. Apresentaram-se as bandas de forró: Bira Marcolino, Andanças, Flor do Serrado, Quenga de Coco, Sandryno Ferraz, Josildo Sá, Irmãos Vilarim, Mário do Acordeon, Estrela Nordestina, a Flor do Mandacaru, Trio Água Branca, Forró Marrone, Suvaco de Cobra, Banda Vizzú, Forró Maior, Amantes do Forró, Rui Grudy, Força Livre, Sala de Reboco, Alpercata de Rabicho, Arnaldo Lima, apresentação dos Bacamarteiros do Pajeú, apresentação dos grupos de xaxado: Cangaceiros do Pajeú, Manoel Martins, Maria Bonita e Cangaceiros de Vila Bela e concursos de quadrilhas. Graças a Deus, cheguei a tempo. Para mim foi inesquecível. A antiga estação de trem foi reformada num local específico para essa festa, que foi bastante divulgada, atraiu pessoas das regiões circunvizinhas. Comidas típicas, Arraiais juninos. Para dar ainda, um aspecto nordestino bem cultural, a minha gente improvisou pau-de-sebo, adivinhações, a faca enfiada no tronco da bananeira, a cigana que simulava a leitura da mão. Meus amigos estavam à frente da organização da festa, Giovanni Sá, secretário de cultura e Dierson Tomaz, presidente da Casa da Cultura. Giovanni me convidou para entregar o troféu ao grupo de xaxado vencedor, o Maria Bonita, e eu também recebi uma cabaça, linda, feita pelo artista Mário Novaes, com o desenho de Lampião. Guardo com muito carinho. No ano seguinte, estive lá de novo e recebi desta vez, do mesmo artista, Mário Novaes, na mesma festa, agora em homenagem a Assisão, uma casinha com meu nome, feita especialmente para mim – um troféu. Podem ver no meu site www.helenaconserva.jor.br , do lado esquerdo clicando em “xaxado”. Neste ano, as bandas foram as mesmas que se apresentaram no ano anterior com acréscimo de França e Forró Karapeba, Ernando, Paulinho Leite, Arreio de Ouro, Côngruos, Trio Água Branca, Banda kurrupio, Os Três do Beco, e as brincadeiras juninas que são a representação, o resgate identitário da nossa cultura popular, além das exposições das secretarias de saúde, educação e ação social com muito artesanato, comidas típicas, artes plásticas e cordéis. Essa festa tem tudo para se tornar um grande acontecimento para o município.
Visitem Serra Talhada pois todos precisam ver os espetáculos dos grupos de xaxado.
Em 2004, foi realizada a primeira feira do livro, uma iniciativa da Academia Serra-talhadense de Letras. Proferiram palestras na Câmara dos Vereadores: Raimundo Carrero, com o tema, “A importância de uma biblioteca pública municipal”, Dierson Ribeiro “O que é Cultura” e Anildomá Willans “Histórias e personagens de Serra Talhada”.
A Filarmônica Vilabelense abriu o evento que teve também apresentação de violeiros. Naquela ocasião a minha amiga, a poetisa Maria Luiza Silva Melo lança o seu segundo livro de poesias, “De coração aberto”. Houve apresentação de maracatu e reisado com o grupo popular “Arte e Dança”, narração de conto infantil com a educadora Fátima Alves, o Grupo de Xaxado Raízes do Cangaço, Show com Humberto Cellus e homenagens a Luiz Gonzaga.
Em outubro de 2006, recebi na minha residência em Feira de Santana muitos exemplares do Vila Bela Jornal. A edição tem a direção e a marca da competência do meu amigo e colega de ideal, Giovanni Sá. Edição especial, abaixo vinha escrito: “Informativo da Academia Serra-talhadense de Letras, 5 de setembro de 2006”. Com poemas de Souza Freire, Feliciano, Socorro Duarte, Oliveiro Burrego, Humberto Cellus, Maria de Jesus Souza, Eunice, Zenóbia Magalhães, Antônio Mariano, Angelita Costa e do próprio Giovanni. Na página 03, a foto dos acadêmicos, na noite da posse (pena eu não pude comparecer). O rol dos 40 acadêmicos com seus respectivos patronos e patronesse. Na última página as sete notas
1º – No mês passado a Academia de Serra-talhadense de Letras doou mais de 500 livros à Biblioteca Municipal, que está sendo montada no térreo da Câmara Municipal.
2º – A ASL - Academia de Serra-talhadense de Letras, recebeu elogios do Presidente da APL - Academia Pernambucana de Letras, dr. Waldênio Porto. O reconhecimento foi em função da aprovação da lei do livro, que protege autores de Serra Talhada.
4º – A poetisa Maria de Jesus, titular da cadeira número 4, na Academia de Serra-talhadense de Letras, está trabalhando no seu livro de poemas inédito: Encontro com a Poesia.
5º - No dia 5 de agosto, dia municipal da cultura, a Academia de Serra-talhadense de Letras promoveu palestras com escritores Lourdes Nicácio e Zuyla Cartaxo do Recife. Versaram sobre literatura pernambucana e vida e obra do poeta Manuel Bandeira. Realizado na Câmara de Vereadores com auditório lotado.
6º - A Escola Chico Mendes prepara mais uma feira de livros que acontecerá no mês de outubro.
7º - A Academia Serra-talhadense de Letras participou dia 24 de agosto, do “Festival de Literatura do Recife”, no painel: “Língua Portuguesa Diferenças Regionais”. O evento aconteceu na FAFIRE – Faculdade de Filosofia do Recife. A nossa Academia foi representada por Humberto Cellus.
programas culturais uma nota prévia sobre o então movimento, porém, já com o local definido e horário para essa reunião de apresentação, será antes um convite à comunidade artística da Ribeira. Exceto para alguns intelectuais, como Lorena e outros, que convidaremos pessoalmente. Veja a possibilidade de enviar artigos para o Jornal “Diário de Pernambuco”. Eu daqui já fiz a minha parte.
Abraços em todos


Marcamos para o dia 5 de agosto (dia municipal da cultura), a reunião na Câmara dos Vereadores, onde oficialmente apresentaríamos para a sociedade serra-talhadense os acadêmicos. Saí da Bahia e Sandro de Recife. Chegamos a Serra Talhada no dia aprazado. No sábado dia 4, nos reunimos eu e Sandro na casa do escritor Dierson Ribeiro para decidirmos como seria a reunião entre os confrades, logo mais a noite. Reunião essa para decidir como aconteceria no dia seguinte a tão esperada reunião de apresentação dos acadêmicos para a sociedade. Colocamos todas as dúvidas em pauta de resolução. E tudo saiu conforme planejamos.

Em conversas (sempre gravadas) Lorena me disse “a Academia teve a sua mão benfazeja e contou com o apoio de outros, eu então me sinto orgulhoso e muito orgulho em lhe dizer que fui um daqueles que participou com todo amor e com todo carinho das suas boas intenções e do seu trabalho para a fundação da Academia Serra-talhadense de Letras. Sou feliz por isso ainda mais, porque ocupo a cadeira de número Um, e tenho como patrono Agamenon Magalhães”.
Em 5 de maio de 2004, Lorena me escreve e diz que “a nossa academia está vivendo com pouco oxigênio para respirar”.
No início de 2003 os acadêmicos se preparavam para a posse que ocorreu dia 25 de janeiro. Não pude participar. Quando cheguei em Serra Talhada meses depois, assisti ao filme da posse, ouvi o discurso de Lorena e tive vontade de comentar. Tomei papel e lápis e de acordo com o que ouvia comecei a escrever. No término fiquei surpresa quando ele solicitou um comentário, uma resenha e eleinstituição - 1958 a 1983 . Lecionou também, no Colégio Polivalente que, depois mudou para Colégio Metódio de Godoy. Professora das disciplinas História e Desenho Geométrico
Em 1969 fez pós-graduação em Filosofia das Ciências Sociais e em 1974 Filosofia da História, ambas na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Caruaru. Iniciou o curso de direito na Faculdade de Direito de Caruaru mas, abandonou logo em seguida, pois, seu compromisso era com o magistério, sua vocação era a de educadora e foi em Serra Talhada, que ela exerceu sua vocação contribuindo com a formação intelectual da sua gente.
No dia 27 de agosto de 2007, Dona Maria Conserva faz setenta anos. Atualmente dedica seu tempo às artes plásticas.

FUNDAÇÃO DA ACADEMIA DE LETRAS DE SERRA TALHADA

Em 1998 participei do movimento que em Feira de Santana, criava mais uma academia, ALA-FS (Academia de Letras e Artes de Feira e Santana). Comecei a idealizar uma entidade similar em Serra Talhada. Tempos depois falei desta possibilidade com os escritores Lorena Conrado, Dierson Ribeiro e o jornalista Iranildo Marques.
Em 12 de janeiro de 2000, Dierson Ribeiro me escreve e diz que vem suscitando debates em torno da criação da Academia Serra-talhadense de Letras. Naquela oportunidade manteve contato com a secretária da Academia de Feira de Santana, que lhe deu algumas instruções inclusive cópia do estatuto. Em inicio de 2001, Dierson cria o “Villa Bella Jornal”, com um intuito de ser no futuro um informativo acadêmico. Em 5 de abril de 2001, o escritor Sandro Vasconcelos telefona para a minha residência em Feira de Santana e me diz ter adaptado o estatuto para a academia serra-talhadense e que estava com toda papelada burocrática para o registro da mesma em cartório. Naquela ocasião Foi por telefone que apresentei Sandro, que estava no Recife, a Dierson, em Serra Talhada. Conversaram e combinaram de se encontrarem em Serra Talhada. Edeste encontro nasceu oficialmente a ASL – Academia Serra-talhadense de Letras. Dierson Ribeiro entrou em contato com algumas pessoas interessadas no movimento acadêmico e as colocou a par de tudo, em seguida, marcaram uma reunião oficial. Era o primeiro passo para um novo tempo na história de Serra Talhada.
Nunca perguntei a Sandro como ele soube que investíamos esforços nesse sentido, porém, a sua participação foi extremamente importante..

Email recebido em 13 de maio de 2001, do escritor Sandro Vasconcelos.

Cara confreira
Antes de mais nada, desejo-lhe muitas felicidades; e, aproveitando o ensejo, saliento que será muito difícil adaptar-me à sua nova realidade. É óbvio que estou referindo-me à mudança de nome. Quanto à ACADEMIA SERRA-TALHADENSE DE LETRAS, para o nosso contentamento, já existe legalmente. Com a reunião realizada na Casa da Cultura, no dia 03 do corrente mês, a fundação, enfim, foi consumada. Numa ata, registrei tudo que sucedera na ordem do dia. Como havia previsto, ao finalizá-la, dirigi-me ao cartório responsável pelos documentos constitutivos de pessoas jurídicas e, por conseguinte, efetivei o necessário registro do Estatuto. No dia subseqüente, Dierson ficou incumbido de requerer o CNPJ junto à Receita Federal, o que acontecera sem dúvidas. Logo, passará a funcionar, de fato, no dia 05 de agosto. Durante a reunião, observei que algumas pessoas convidadas não teriam condições de ocupar uma cadeira acadêmica. Como você sabe, não basta simplesmente publicar um livro para adquirir essa prerrogativa, o nível cultural, lato sensu, é mais considerável. Por isso, ante essa situação, deixei claro que ninguém teria um posto garantido; todos seriam avaliados por uma comissão, que, brevemente, será formada. Assim, não desagradei os participantes, ao contrário, consegui foi o apoio de todos. Na minha concepção, fundamentado na qualidade dos membros das academias que conheço, não devemos preocupar-nos com o preenchimento súbito das cadeiras da nossa entidade recém-fundada. As vagas remanescentes ficarão à disposição de quem gozar dos requisitos estatuídos. O importante é que formemos uma academia que transpareça respeito no âmbito da comunidade, uma vez que uma escolha precipitada poderia colocar em risco a nossa reputação. Críticas surgirão inevitavelmente no que diz respeito a um ou outro membro; isso é até normal. Entretanto, agindo com cautela, nós procuraremos não cometer injustiça com os aspirantes às vagas. O importante nesse processo é a adoção do princípio da imparcialidade; só assim, o sucesso será vislumbrado.
Muito sucesso, paz e alegria. Atenciosamente, Sandro R. B. Vasconcelos , seu amigo e irmão.
Original Message ----- From: Sandro Rogério Barros de Vasconcelos To: conserva@gd.com.br Sent: Sunday, May 13, 2001 8:08 PM Subject: RESPOSTA Recife (PE), 13 de maio de 2001.

Email de Helena Conserva para Sandro vasconcelos:
Prezado confrade
Estou contando os dias para poder participar da primeira reunião na Academia Serra-talhadense de Letras.
Precisamos pensar na divulgação do nosso movimento acadêmico nos meios de comunicação. Precisamos agir nesse sentido ou correr o risco de criar uma academia supostamente fechada e severamente criticada. O Jornal “Desafio”, no momento está com as publicações suspensas. Dispomos hoje, em Serra Talhada de dois jornais, “O Cancão” e um outro social “Wério Farias”, que pela forma não atende aos nossos anseios literários. Precisamos informar o que vem a ser uma academia e comunicar que a Academia Serra-talhadense de Letras, se reunirá em agosto próximo para apresentar-se à sociedade. Depositei ontem no correio, correspondências nesse sentido para os jornais acima citados. Pois, até o mês de agosto, teremos que reunir esforços nesse sentido. Também, você e Dierson, deverão escrever notas breves para os mesmos jornais. Pensei na possibilidade de no final de junho podermos enviar ofício ou requerimento para as emissoras de rádio da cidade, para divulgar em membro fundador da Academia Serra-talhadense de Letras. Ocupa a cadeira número Um, que tem como patrono o estadista Agamenon Magalhães.
Não é fácil, contudo, para mim, na condição de aluna, resenhar um discurso do mestre. O seu texto discorre tecendo uma colcha de retalhos alinhavada pelo fio do tempo. No primeiro parágrafo é estabelecido um paradigma de sabedoria usando as figuras da mitologia grega de Atena e Minerva. Uma sábia introdução para uma ocasião tão especial em que os serra-talhadenses tomam posse numa instituição designada academia, onde se cultua o saber.
“ACADEMIA - nascida na Grécia como todas as coisas do espírito - dos jardins cultivados por Academos, filósofo requintado, que dedicou-se ao estudo das Ciências e das Artes, que das reuniões com os intelectuais foi o protagonista, daí a estirpe do termo academia, que naquele tempo, 400 anos a. C. , Platão pontificou nesse ambiente, onde a cultura não tinha fronteiras, durante os debates que resultaram na fundação da escola de Aristóteles''.
Neste momento o confrade rompe com o passado e traz o termo academia para o nosso momento e explicita
“Que a expressão academia, rompeu os horizontes do mundo ocidental e onde houvesse uma escola de nível superior ali estavam uma Academia e seus Acadêmicos: de Letras. de Ciências, de Música e das Artes''.
Com uma singular destreza, ele faz a transição de um longínquo tempo para as terras da República do Brasil, nos idos de 1896, registrando então, a criação da Academia Brasileira, na cidade do Rio de Janeiro, e cita os pioneiros, Coelho Neto e Machado de Assis. Evocando este insigne momento das letras nacionais o narrador sugere que o diálogo entre o leitor e o nosso momento de acadêmicos chegue as vias de fato.
Estabelecido estes dois primeiros momentos, ele adentra no terreno árido do sertão nordestino - árido de chuvas mas, ao mesmo tempo fértil, onde as academias encontraram homens de talento e criatividade. Herdeiros de uma cultura impar e assim, puderam florescer – terreno este que ele conhece melhor que ninguém.
''No sertão nordestino entregue à própria sorte, onde estaria disposto a doar a quantia de quinhentos reais para a academia a quem se propusesse a resenhar o seu discurso. Mostrei-lhe aqueles primeiros escritos e disse que enviaria de Feira de Santana a resenha do seu texto, mais elaborada. Realizamos o “I Concurso de redação sobre a vida de Agamenon Magalhães” e a verba prometida foi dividida entre os vencedores.

Textos a seguir:
1 - Discurso do Sr. Luiz Conrado de Lorena e Sá
2 - Resenha do discurso por Helena Conserva
3 - I Concurso de Redação sobre a vida de Agamenon Magalhães


1 – Discurso de posse dos membros da Academia Serra-talhadense de Letras, por Luiz Lorena

“Cada homem carrega a história de todos os que o precedem e faz, por sua vez, em certa medida, a história de todos os que o seguirão. Nenhum de nós começa do princípio. Nascemos no meio de nossa própria historia”. Padre Daniel Lima
Atenas, deusa mitológica da antiga Grécia, filha de Zeus, o deus dos helênicos, está para o povo grego como Minerva está para os romanos, ambas simbolizam a sabedoria.
Atenas, capital da Grécia, recebeu essa denominação em homenagem a Atenas. Nas cercanias de Atenas implantou-se um bosque, mais conhecido como Jardim de Academos.
Ali, esse intelectual ateniense – ACADEMOS – edificou sua vivenda e plantou oliveiras. Filósofo requintado dedicou-se ao estudo das Ciências e das Artes.
Com o objetivo de preencher as horas ociosas e de evitar a solidão nos fins de semana, convidava os intelectuais da metrópole, inclusive Platão, para dirimir dúvidas e buscar novos conceitos para a cultura ocidental.
Tornou-se rotina a presença dos chamados homens-de-letras ou sábios na chácara de Academos.
Como o “hábito faz o monge” essa prática popularizou-se e talvez por isso o inconsciente daquele filósofo, simplificou a expressão para: “comparecer à Academia”, ainda em homenagem a Academos.
Naquele tempo, 400 anos a.C., Platão pontificou nesse ambiente, onde a cultura não tinha fronteiras, durante os debates que resultaram na fundação da escola de Aristóteles.
A expressão ACADEMIA, rompeu os horizontes do mundo ocidental e onde houvesse uma escola de nível superior ali estavam uma Academia e seus Acadêmicos: de Letras, de Ciências, de Música e das Artes.
No Brasil, em 1896, Coelho Neto e Machado de Assis com apoio de outros intelectuais ilustres, fundaram a Academia Brasileira de Letras na cidade do Rio de Janeiro. Essa Casa de Cultura tem prestado relevantes serviços ao país.
O sertão nordestino entregue à própria sorte, onde o analfabetismo recebia a marca do sinete oficial, teve o seu desenvolvimento cultural prejudicado durante dois séculos. Sabe-se que até a Proclamação da República e mesmo depois, o poder público esteve limitado à orientação da igreja católica, que nessa região pouco ou quase nada fez para o encaminhamento de projetos que salvaguardassem a juventude.
Durante quatro décadas do século XX, o jovem sertanejo, como se estivesse engessado pelo determinismo histórico, só tinha duas alternativas no campo de ação: ser soldado de polícia ou cangaceiro. Nessa fase, Vila Bela viveu um período de obscurantismo, com o surgimento de grupos de bandoleiros que culminou com o “reinado” de Virgulino Ferreira da Silva (Lampião).
O ano de 1930 marcou a chegada da carretagem para substituir a almocrevaria, que obviamente, com a chegada do caminhão, serviria para alavancar o progresso da região. Essa expectativa foi frustrada duramente pela grande seca de 1930/1932 que destruiu lavouras e dizimou rebanhos.
A cidade de dois mil habitantes pouco significava para a economia do município de vocação agropecuária.
O estudante de curso primário não tinha a quem rogar ajuda para solução do problemas de Aritmética.
Depois de 1940, construíram-se Grupos Escolares na cidade e nas sedes distritais. Não tardou para que se instalassem Ginásios e Escolas Normais e até Faculdade de Formação de Professores.
A implantação de uma Faculdade de Direito continua sendo um desejo e preocupação para todos.
Já agora, no começo do século XXI, milênio III, um grupo de jovens estimulados pela justa ambição de novas conquistas, decidiu com a participação de pessoas mais experientes, fundar a Academia Serra-talhadense de Letras. Esta iniciativa acontecerá com toda evidência para estimular a criação e a perpetuação de novos valores culturais.
Pouco importará que o despreparo ocorra, porém, os mais lúcidos e instruídos conduzirão o barco que singrará em águas desconhecidas.
A honra da distinção que me enobrece para ocupar a cadeira número Um da Academia Serra-talhadense de Letras, que tem como patrono o estadista Agamenon Magalhães, aqui nascido e o convite para expressar meu pensamento nesta oportunidade como orador oficial, são evidentemente a razão do meu orgulho – sem disfarce – de ser integrante deste sodalício na arrancada em busca de novos campos do conhecimento humano.

Acreditem-me
Luiz Conrado de Lorena e Sá
Serra Talhada, janeiro 24, de 2003.


2 - Resenha do discurso do Sr. Luiz C. de L. e Sá por Helena Conserva

DISCURSO DE LUIZ CONRADO DE LORENA E SÁ – ORADOR OFICIAL DA SESSÃO SOLENE DE POSSE DOS MEMBROS DA ACADEMIA SERRA-TALHADENSE DE LETRAS

Sr. Luiz Conrado de Lorena e Sá, pesquisador e historiador. Um dos mais profundos conhecedores da cultura local na atualidade, membro fundador da Academia Serra-talhadense de Letras. Ocupa a cadeira número Um, que tem como patrono o estadista Agamenon Magalhães.
Não é fácil, contudo, para mim, na condição de aluna, resenhar um discurso do mestre. O seu texto discorre tecendo uma colcha de retalhos alinhavada pelo fio do tempo. No primeiro parágrafo é estabelecido um paradigma de sabedoria usando as figuras da mitologia grega de Atena e Minerva. Uma sábia introdução para uma ocasião tão especial em que os serra-talhadenses tomam posse numa instituição designada academia, onde se cultua o saber.
“ACADEMIA - nascida na Grécia como todas as coisas do espírito - dos jardins cultivados por Academos, filósofo requintado, que dedicou-se ao estudo das Ciências e das Artes, que das reuniões com os intelectuais foi o protagonista, daí a estirpe do termo academia, que naquele tempo, 400 anos a. C. , Platão pontificou nesse ambiente, onde a cultura não tinha fronteiras, durante os debates que resultaram na fundação da escola de Aristóteles''.
Neste momento o confrade rompe com o passado e traz o termo academia para o nosso momento e explicita
“Que a expressão academia, rompeu os horizontes do mundo ocidental e onde houvesse uma escola de nível superior ali estavam uma Academia e seus Acadêmicos: de Letras. de Ciências, de Música e das Artes''.
Com uma singular destreza, ele faz a transição de um longínquo tempo para as terras da República do Brasil, nos idos de 1896, registrando então, a criação da Academia Brasileira, na cidade do Rio de Janeiro, e cita os pioneiros, Coelho Neto e Machado de Assis. Evocando este insigne momento das letras nacionais o narrador sugere que o diálogo entre o leitor e o nosso momento de acadêmicos chegue as vias de fato.
Estabelecido estes dois primeiros momentos, ele adentra no terreno árido do sertão nordestino - árido de chuvas mas, ao mesmo tempo fértil, onde as academias encontraram homens de talento e criatividade. Herdeiros de uma cultura impar e assim, puderam florescer – terreno este que ele conhece melhor que ninguém.
''No sertão nordestino entregue à própria sorte, onde o analfabetismo recebia a marca do sinete oficial, teve o seu desenvolvimento cultural prejudicado durante dois séculos(...)''.
Neste parágrafo podemos contemplar uma argamassa de prosa e poesia. Uma poesia norteada pela agonia quase do tamanho da expiação da nossa gente. E prossegue:
'' Sabe-se que até a Proclamação da República e mesmo depois, o poder público esteve limitado à orientação da igreja católica, que nessa região pouco ou quase nada fez para o encaminhamento de projetos que salvaguardassem a juventude''.
Há um lamento nas palavras do narrador, guiado pelo código da estética sentimental natural de alguém que ama a sua história e a sua gente.
Seguindo os ditames da historiografia municipal, fez referencia ao cangaço, a grande seca de 1930/1932, este capítulo negro da nossa saga. A falta de recursos para a educação, a criação das primeiras instituições de ensino, o sonho acalentado da implantação já agora na atualidade, de uma Faculdade de Direito.
Percebemos nas entrelinhas como vibra este serra-talhadense com a iluminação intelectual da nossa gente.
A definição que faço, deste discurso, no meu parco saber, é de uma prosa poética de um lirismo arrebatador, subscrito nas entrelinhas. É, também, um poema épico pela dimensão que assume cada item aqui relembrado, colocado de maneira sucinta que, não aniquila a história, mas, confere ao confrade uma agilidade para com as palavras e um grande poder de síntese.
O orador não só é um homem de palavras, mas também de história. Leva Serra Talhada consigo na palavra e no coração, para o momento culminante da sua vida acadêmica.
Este momento em que os acadêmicos, na solene festa de posse, ouviram este resgate histórico que trouxe a tona as nossas lutas passadas e sangue derramado, pôde compreender melhor a supremacia do momento que estavam vivendo. Nosso passado foi de lutas, mas, o horizonte afigura-se grandioso. Serra Talhada desponta para o intelecto.
Se a cultura sertaneja fosse um personagem de filme que tivesse, em seu script, a missão de homenagear alguém por divulgar a beleza de um povo simples, forte e indescritivelmente valente, essa pessoa seria o confrade orador desta noite.
Em realidade a Academia se sente honrada em tê-lo como membro fundador, pois Luiz Conrado de Lorena e Sá, além de ser civilizado e erudito é também um verdadeiro livro humano, pronto para ser consultado por telefone, por cartas e melhor ainda se pessoalmente.
Findo o meu trabalho com receio por não conseguir atingir a profundidade que merece o texto. Foi o que pude realizar de melhor, naturalmente críticos mais bem dotados terão oportunidade de oferecer uma resenha a altura.

DEMOCRISOUVRE

EM TERRA DE CEGO QUEM TEM UM OLHO SÓ É REI
E QUEM TEM DOIS É REPROVADO

No Brasil pessoa com mérito e competência dificilmente são promovidas. Promovidos são os bajuladores e puxa-sacos.
Cometi o erro fatal de mostrar que eu tinha dois olhos. Se você é um dos milhares de brasileiros que possui dois olhos, tome cuidado. Nunca deixe seu professor, colega de trabalho ou chefe saber.
Participei de todas as reuniões para definir a nossa formatura. Aluna do curso de Letras com Francês na Universidade Estadual de Feira de Santana. Concomitante acontecia também às reuniões para orientação do trabalho final de curso, a monografia. Algumas colegas compraram, outros encontraram trabalhos prontos de amigas formadas anos antes, poucos fizeram o trabalho do próprio punho como eu. Desde o início que a professora vinha observando o meu trabalho com uma certa admiração e curiosidade. Ela deixava transparecer inveja e me olhava de outra maneira, do seu olhar saiam chispas de raiva misturada com admiração.
A monografia é um trabalho de pesquisa rigorosa que segue normas e padrões da ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas. É um trabalho que demanda tempo iniciado na disciplina Metodologia do Trabalho Científico, que é pré-requisito para o trabalho monográfico que encerra os cursos acadêmicos nas universidades. O meu trabalho realmente se distinguia como um trabalho de pesquisa, iniciado anos antes, quando eu cheguei pra morar em Feira de Santana, em 1991. Não imaginava que viesse a ser um trabalho de final de curso universitário e que me trouxesse tantos problemas de ordem emocional em 2004.
Sempre tive comigo essa coisa de anotar diferenças, perceber melhor falando, perceber e registrar, talvez seja o comportamento de todo pesquisador. Não sei. Sei que na cidade de Feira de Santana despertou minha atenção os vendedores ambulantes. A maneira diversificada que eles inventavam para vender as mais diferentes variedades de lanches. Carrinhos adaptados para vender cachorro-quente, atrelado à bicicleta. A criatividade era tamanha que chegavam e ter chama acesa com gás de bujão. A minha observação era o resultado do choque cultural, do entrelace de culturas de um estado para o outro dentro do nordeste. Em Pernambuco o máximo que vi foi vendedores de picolé.
O que não é comum salta aos olhos do pesquisador que também não é visto como uma pessoa comum. Cada vez que eu saia às ruas notava um novo modelo de carrinho adaptado e uma nova sugestão de alimento a ser oferecido, ou melhor, vendido. A limpeza era cada vez mais rigorosa, o cheiro cada vez mais convidativo. Tudo quentinho a espera do cliente. Meu interesse crescia e logo a necessidade de fotografar e posteriormente entrevistá-los para saber como surgiu à idéia. Nas entrevistas percebia-se que aquele fenômeno, assim o chamei de fenômeno, era uma forma de driblar a crise de desemprego que se alastrava pelo nosso país. A crise contribuiu com o surgimento de uma economia informal que nascia com a criatividade aliada a necessidade. O ideal seria sair da cidade, percorrer outros estados brasileiros para averiguar se o fenômeno se repercutia. Levar a pesquisa adiante. Minhas observações ficaram limitadas a Feira de Santana.
O trabalho do pesquisador é contínuo. Ele não fica centrado no seu objeto de estudo o tempo todo, obsessivamente. O pesquisador acrescenta um dado novo em um momento qualquer da sua vida e assim, sem perceber, ao longo dos anos, vai acumulando dados sobre vários assuntos porque quem pesquisa não pesquisa um objeto apenas, sua visão é ampla e abrange vários aspectos.
Em 2002, registrei na cidade duas lojas especializadas em vender os carrinhos. Percebi então que o fenômeno se fazia notável a ponto de as empresas investirem na fabricação dos carrinhos e apostarem no mercado. Agora eles estavam bem mais sofisticados mas, a matriz era popular.
Em 2004, final do curso de Letras com Francês, na disciplina que antecede a monografia, na qual deveríamos iniciar uma pesquisa, pensei em transformar a pesquisa do fenômeno em um trabalho científico, e porque não? Pedi ajuda um amigo, astrólogo, intelectual, bastante competente, grande estudioso de vários assuntos. Expliquei para ele o meu objeto de estudo e pedi que me ajudasse a encontrar um nome para designar o fenômeno que nascia com a crise do desemprego e que talvez, pudesse ser derivado da palavra crise. Ele acrescentou o radical grego “demo”, que significa povo . Até aí já tínhamos “democrise”. Para mim essa palavra estava incompleta pra ele não. Posteriormente, lendo o livro “Lingüística Românica” de Rodolfo Ilari (Capítulo II) sobre “a natureza das línguas e os mecanismos das suas evoluções”, encontrei o verbo, “ouvré” (10), em francês significa trabalho ornado, burilado e antes significou falta de trabalho. Foi o complemento para o que se definiu, DEMOCRISOUVRE.
Para validar a minha pesquisa, pedi a um antropólogo, professor da Universidade Estadual de Feira de Santana, pessoa bastante competente no meio acadêmico, para fazer um comentário. Deixei no seu escaninho a cópia conforme combinamos. A sua resposta, alguns dias depois, foi taxativa, dizia que meu trabalho não valia de nada. Não viu ele sustentabilidade nem fundamentos e que aquilo só servia pro lixo.
No mês seguinte, dia do trabalho, 1o de maio de 2004, organizei uma exposição no hall da Biblioteca Julieta Carteado para apresentar a comunidade acadêmica a DEMOCRISOUVRÉ. Durante a semana que ficou exposta, espiei o livro de visitas todos os dias e encontrei o apoio dos acadêmicos que me parabenizavam pela pesquisa, pela descoberta. Deixavam para mim palavras de entusiasmo.
Mas, como disse no início, a professora da disciplina monografia,, durante as aulas de orientação dos trabalhos monográficos vinha observando o meu trabalho com uma certa admiração e desprezo. Ela deixava transparecer inveja e me olhava de outra maneira, do seu olhar saiam chispas de raiva misturadas com admiração. Uma semana antes da entrega dos trabalhos ela sugeriu que eu mudasse de tema. Aconselhou-me a seguir minhas amigas, pegando uma vertente literária dentro de um romance qualquer da nossa literatura esquecendo essa tal DEMOCRISOUVRE. Eu disse que usaria um capítulo inteiro para explicar o neologismo e que ela estava diante não de um tema e sim, de uma pesquisa de vários anos. Mesmo assim, ela foi irredutível quando disse que não aceitaria o meu trabalho. Fui reprovada com a justificativa de que a minha pesquisa não tinha sentido de ser. Fiquei bastante triste. Tudo pronto para a formatura, não pude participar da festa junto com a minha turma que sentiu imensamente. Recebi apoio de muitos docentes e discentes do departamento de letras e artes, alguns inclusive, me aconselharam a abrir um processo dentro da instituição. Não fiz, estava extremante magoado por não entenderem o meu objeto de estudo. Colei grau sozinha e recebi o diploma no primeiro semestre do ano seguinte mas, quase que sou reprovada outra vez, porque a outra professora também não gostou da monografia, não era o comum. O meu trabalho não tinha sentido de ser com aquele nome esquisito, não tinha consistência. Mas o problema não era necessariamente o neologismo mas, todo o trabalho enfim. Fiquei com a média mínima e nem tive direito de receber a minha monografia pois, nessas circunstancias o trabalho fica retido na Secretaria de Cursos (acesse o meu site para ver fotos e outras partes da pesquisa: www.helenaconserva.jor .br lado esquerdo o link democrisouvre). A segunda professora também me reprovaria por não querer entender o meu trabalho, valorar a minha descoberta. Minha aprovação só aconteceu graças à interferência da professora Isa Gonçalves, que pediu a sua colega, professora Cristina, que considerasse o meu trabalho e assim, passei nas circunstâncias a cima citadas.
Jô, um colega da nossa turma, fez o seguinte comentário: “em terra de cego amiga, quem tem um olho só é rei quem tem dois é reprovado. Helena quem mandou você enxergar demais?

Um breve resumo:
A DEMOCRISOUVRÉ
DEMO
= radical grego que significa povo
CRISE = Sf. 3.deficiência, penúria
OUVRÉ = Adj. trabalhado, lavrado, ornado (francês)

DEMOCRISOUVRE significa falta de trabalho para o povo. É uma palavra formada da junção do radical grego DEMO, que significa povo, da palavra CRISE, substantivo feminino que significa deficiência, penúria na língua portuguesa e do adjetivo OUVRÉ*, em língua francesa que significa trabalhado ornado.
Portanto ao vocábulo “folclore”, atribui-se toda e qualquer manifestação do povo, no sentido de diversão, no sentido lúdico. À DEMOCRISOUVRE atribui-se toda e qualquer manifestação do povo, no sentido econômico. De sobrevivência.
A crise reflete com maior intensidade nas camadas excluídas da sociedade, mas que, apesar das circunstâncias nas quais se inscreve, produz símbolos e sentidos que refletem no seu mundo (BOFF, 2002). (9)
Os estruturalistas alimentaram desde cedo a reflexão dos romanistas também em outras áreas; no tocante ao léxico, por exemplo, reforçaram a idéia de que o aparecimento de uma nova palavra, ou a alteração do sentido de uma palavra já existente repercute sobre o sentido de outras palavras “próximas” no sistema. Assim, quando a palavra trabalho perdeu o sentido de “suplício” (“trabalho” dignificou na origem “três paus”, o suplício dos três paus), e passou a significar mais neutralmente “prestação de serviço em troca de remuneração”, deslocaram dessa posição “neutra” outras expressões como obrar, lavrar e manobrar etc. que assumiram valores específicos (trabalhar os campos, trabalhar com as mãos etc.). Quando a evolução fonética do francês aproximou a forma do adjetivo ouvrable (ligado historicamente a ouvrier, “operário” e oeuvre, “obra”) do verbo ouvrir ( “abrir” ) a expressão jour ouvrable passou a ser interpretada como significando “dia em que o comércio abre” e não “dia de trabalho”( ILARI, 1992). (10)
Foi depois da leitura deste texto, sobre a evolução fonética do francês que aproximou a forma do adjetivo ouvrable (ligado historicamente a ouvrier, “operário” e oeuvre, “obra”), que procuramos primeiramente usar o adjetivo ouvrier, que significa operário, trabalhador, obreiro, depois, veio à inspiração para usar o adjetivo ouvré como terminação da nossa palavra, suprimindo o acento gráfico. Neste caso, o adjetivo ouvré, representa melhor o que a palavra exprime de fato. A DEMORISOUVRE nasce da concentração, do ato de pensar, para depois nascer (parir), a idéia que será burilada, trabalhada e ornada para depois vir a gerir lucros.
· NOTA: Existem dois verbos parecidos: OUVRER= fabricar, fazer, trabalhar e, OURIR= abrir. O primeiro tem o part. Passado em OUVRÉ, fabricado, trabalhado. O segundo tem o part. Passado irregular OUVERT= aberto. (VEIGA, 1996). (11)

Entreposto comercial, ponto de convergência de povos de várias partes do mundo, a maior e mais importante cidade da Bahia depois da capital. A ''Princesa do Sertão'', como é cognominada, que atualmente exibe um modernismo de cidade grande e que nasceu do comércio, recebe, desde seus primórdios, empresários industriais** interessados em grandes negócios e também pessoas simples em busca de sobrevivência. Desde então, FSa. já era salientada como metáfora popular, uma grande mãe que adota como seus, filhos vindos de outras plagas.
E há o interesse individual ou de grupos subalternos que estão à margem da sociedade, são pessoas simples, desempregadas em busca da sobrevivência. Essa massa não está qualificada para trabalhar nas indústrias e se depara com a crise do desemprego, fruto das manobras políticas que desfavoreceram a economia do país ao longo do século XX, que geraram conflitos sociais, nas mais diversas cidades brasileiras e latino-americanas, a partir da década de 1980. Em confronto com essa massa de desempregados eclodiu na DEMOCRISOUVRE, ou seja, manifestação do povo no sentido de criar subsídios para a própria sobrevivência.
Foi assim, que em 1991 registrei o primeiro vendedor ambulante de bicicleta adaptada na cidade de FSa. Ao longo dos últimos anos, esta prática vem sendo diversificada e são inúmeras bicicletas, bancas, carrinhos e automóveis adaptados espalhados pelos diversos locais da cidade.
Partindo desses pressupostos, procuro direcionar este trabalho, no sentido de analisar e registrar o fenômeno da DEMOCRISOUVRE no município de Feira de Santana.
Da observação ao registro: Do confronto com a cultura baiana feirense sobressaiu-se a observação que ora analisa-se, neste trabalho.
Em 1991, nascia na cidade uma nova maneira de driblar a crise da extinção de trabalho e ganhar a vida. A criatividade a serviço da sobrevivência. Neste ano aparece a primeira bicicleta adaptada para vender cachorro-quente, (hot-dog ou sanduíche). Foi notável pelo fato de nunca se ter visto antes. E diremos que foi o surgimento porque andamos pelas ruas do comércio observando aquela novidade. Da observação o registro foi imprescindível. Agora, não só bicicletas mas, bancas, carrinhos, e automóveis foram adaptados. Não só hot-dog mais, também salada, pastel, beiju, refresco, serviços de plastificarão, de divulgação etc. O fenômeno ganhava as ruas e crescia em descomedimento.
Leis municipais foram criadas que nem sempre consegue agradar a todos, mas são necessárias do ponto de vista do projeto urbano.
As estruturas sociais se modelam conforme as normas culturais, a cultura por sua vez não pode existir sem uma estrutura que não só lhe serve de base, mas que é ainda um dos fatores de sua criação ou de sua metamorfose (SOUZA, 2000). (12)
Amadeu Amaral reitera as recomendações quanto a um maior cuidado na coleta e análise das manifestações que nascem da repressão da complexidade da cultura popular, que só aparentemente é simples (AMARAL, 1976). (13) Sílvio Romero diz que é necessário respeitar-se-lhe a forma tal qual ela se oferece, com suas variantes, ajuntando-se-lhes quanto possível as idéias, o que as motivaram (ROMERO, 1977). (14)
A necessidade de registro de qualquer atividade de cultura popular é fundamental. Luiz da Câmara Cascudo ressalta inclusive a necessidade de registrar como se distribui geograficamente, e compará-la com a de outra região e países para, a partir dessa comparação, buscar suas origens, no tempo e no espaço, estabelecendo hipóteses de como teria sido transplantada de um local para outro e, através desta ação, quais as modificações sofridas. O trabalho se resume à busca de origens e ao chamado método comparativo (CASCUDO, 1978). (15)
* Le Petit Robert. Marie-Héléne Drivaud. (Org.) Dictionnaire de la Langue
Françoise. Ed. Dicorobert. Montreal, 1996.
sociedade, mas que, apesar das circunstâncias nas quais se inscreve, produz símbolos e sentidos que refletem no seu mundo (BOFF, 2002). (9)
Os estruturalistas alimentaram desde cedo a reflexão dos romanistas também em outras áreas; no tocante ao léxico, por exemplo, reforçaram a idéia de que o aparecimento de uma nova palavra, ou a alteração do sentido de uma palavra já existente repercute sobre o sentido de outras palavras “próximas” no sistema. Assim, quando a palavra trabalho perdeu o sentido de “suplício” (“trabalho” dignificou na origem “três paus”, o suplício dos três paus), e passou a significar mais neutralmente “prestação de serviço em troca de remuneração”, deslocaram dessa posição “neutra” outras expressões como obrar, lavrar e manobrar etc. que assumiram valores específicos (trabalhar os campos, trabalhar com as mãos etc.). Quando a evolução fonética do francês aproximou a forma do adjetivo ouvrable (ligado historicamente a ouvrier, “operário” e oeuvre, “obra”) do verbo ouvrir ( “abrir” ) a expressão jour ouvrable passou a ser interpretada como significando “dia em que o comércio abre” e não “dia de trabalho”( ILARI, 1992). (10)
Foi depois da leitura deste texto, sobre a evolução fonética do francês que aproximou a forma do adjetivo ouvrable (ligado historicamente a ouvrier, “operário” e oeuvre, “obra”), que procuramos primeiramente usar o adjetivo ouvrier, que significa operário, trabalhador, obreiro, depois, veio à inspiração para usar o adjetivo ouvré como terminação da nossa palavra, suprimindo o acento gráfico. Neste caso, o adjetivo ouvré, representa melhor o que a palavra exprime de fato. A DEMORISOUVRE nasce da concentração, do ato de pensar, para depois nascer (parir), a idéia que será burilada, trabalhada e ornada para depois vir a gerir lucros.
· NOTA: Existem dois verbos parecidos: OUVRER= fabricar, fazer, trabalhar e, OURIR= abrir. O primeiro tem o part. Passado em OUVRÉ, fabricado, trabalhado. O segundo tem o part. Passado irregular OUVERT= aberto. (VEIGA, 1996). (11)

Entreposto comercial, ponto de convergência de povos de várias partes do mundo, a maior e mais importante cidade da Bahia depois da capital. A ''Princesa do Sertão'', como é cognominada, que atualmente exibe um modernismo de cidade grande e que nasceu do comércio, recebe, desde seus primórdios, empresários industriais** interessados em grandes negócios e também pessoas simples em busca de sobrevivência. Desde então, FSa. já era salientada como metáfora popular, uma grande mãe que adota como seus, filhos vindos de outras plagas.
E há o interesse individual ou de grupos subalternos que estão à margem da sociedade, são pessoas simples, desempregadas em busca da sobrevivência. Essa massa não está qualificada para trabalhar nas indústrias e se depara com a crise do desemprego, fruto das manobras políticas que desfavoreceram a economia do país ao longo do século XX, que geraram conflitos sociais, nas mais diversas cidades brasileiras e latino-americanas, a partir da década de 1980. Em confronto com essa massa de desempregados eclodiu na DEMOCRISOUVRE, ou seja, manifestação do povo no sentido de criar subsídios para a própria sobrevivência.
Foi assim, que em 1991 registrei o primeiro vendedor ambulante de bicicleta adaptada na cidade de FSa. Ao longo dos últimos anos, esta prática vem sendo diversificada e são inúmeras bicicletas, bancas, carrinhos e automóveis adaptados espalhados pelos diversos locais da cidade.
Partindo desses pressupostos, procuro direcionar este trabalho, no sentido de analisar e registrar o fenômeno da DEMOCRISOUVRE no município de Feira de Santana.
Da observação ao registro: Do confronto com a cultura baiana feirense sobressaiu-se a observação que ora analisa-se, neste trabalho.
Em 1991, nascia na cidade uma nova maneira de driblar a crise da extinção de trabalho e ganhar a vida. A criatividade a serviço da sobrevivência. Neste ano aparece a primeira bicicleta adaptada para vender cachorro-quente, (hot-dog ou sanduíche). Foi notável pelo fato de nunca se ter visto antes. E diremos que foi o surgimento porque andamos pelas ruas do comércio observando aquela novidade. Da observação o registro foi imprescindível. Agora, não só bicicletas mas, bancas, carrinhos, e automóveis foram adaptados. Não só hot-dog mais, também salada, pastel, beiju, refresco, serviços de plastificarão, de divulgação etc. O fenômeno ganhava as ruas e crescia em descomedimento.
Leis municipais foram criadas que nem sempre consegue agradar a todos, mas são necessárias do ponto de vista do projeto urbano.
As estruturas sociais se modelam conforme as normas culturais, a cultura por sua vez não pode existir sem uma estrutura que não só lhe serve de base, mas que é ainda um dos fatores de sua criação ou de sua metamorfose (SOUZA, 2000). (12)
Amadeu Amaral reitera as recomendações quanto a um maior cuidado na coleta e análise das manifestações que nascem da repressão da complexidade da cultura popular, que só aparentemente é simples (AMARAL, 1976). (13) Sílvio Romero diz que é necessário respeitar-se-lhe a forma tal qual ela se oferece, com suas variantes, ajuntando-se-lhes quanto possível as idéias, o que as motivaram (ROMERO, 1977). (14)
A necessidade de registro de qualquer atividade de cultura popular é fundamental. Luiz da Câmara Cascudo ressalta inclusive a necessidade de registrar como se distribui geograficamente, e compará-la com a de outra região e países para, a partir dessa comparação, buscar suas origens, no tempo e no espaço, estabelecendo hipóteses de como teria sido transplantada de um local para outro e, através desta ação, quais as modificações sofridas. O trabalho se resume à busca de origens e ao chamado método comparativo (CASCUDO, 1978). (15)
outra professora também não gostou da monografia, não era o comum. O meu trabalho não tinha sentido de ser com aquele nome esquisito, não tinha consistência. Mas o problema não era necessariamente o neologismo mas, todo o trabalho enfim. Fiquei com a média mínima e nem tive direito de receber a minha monografia pois, nessas circunstancias o trabalho fica retido na Secretaria de Cursos (acesse o meu site para ver fotos e outras partes da pesquisa: www.helenaconserva.jor .br lado esquerdo o link democrisouvre). A segunda professora também me reprovaria por não querer entender o meu trabalho, valorar a minha descoberta. Minha aprovação só aconteceu graças à interferência da professora Isa Gonçalves, que pediu a sua colega, professora Cristina, que considerasse o meu trabalho e assim, passei nas circunstâncias a cima citadas.
Jô, um colega da nossa turma, fez o seguinte comentário: “em terra de cego amiga, quem tem um olho só é rei quem tem dois é reprovado. Helena quem mandou você enxergar demais?

POEMAS PARA UMA CIDADE SEM PECADOS

Das horas verdes, intragáveis
Deixei escapar outros poemas limpos
Sem mágoas do passado, da cidade convertida
Despojo de um ninguém na mira do nada
As roupas sujas foram lavadas de soluços, sem lágrimas.
Tudo limpo posto fora (sem culpa nem medo)
Tudo estendido no varal como a capa de um livro
Ah! Esse retrocesso, esse desaguar
vitoriosa, guerreira
Nós nos Perdoamos e reconhecemos sermos comparsas
Cúmplices, acima do bem e do mal.
O passado na Igreja do Rosário
Ficou, lá atrás, braços vadios, beijos infantis
Pulsando. Futuro incerto, incesto
Gastando o amor que acabava de me descobrir
Tantos olhos me apontando
Tantos dedos me olhando
Os cômodos, os bancos, as portas, os altares da igrejinha
Perplexos, indignados, olhos e olhos falam pelos cotovelos
Água suja, escoada, tratada, renovada
Eiva em todas as janelas
E eu num prosaico beijo me deixava neviscar
Protelando o seu fim, éternité, delire
Blesser, blesser, blesser, blesser, douleur
Porque além da igrejinha a vida era assim
Assim de Pai Nosso! AVE MARIA!!
Coita de amor de desabada perdição
Cortina de fumaça traspassada
Seqüestrando o meu presente e predestinado o futuro
Aniquilação total das mil e quinhentas noites
Na taverna. Na taverna não tinha dias, só noites.
Macário (sombrio) – vou morrer
Penseroso – eu sonhava em amor!
Eu casei com Satan e vivi assim, na taverna...
Roupa suja pela manhã
Zum zum de zueira que disse, que disse, que viu ao meio-dia
Drinques à noite
E a cidade suja, escarrada
Mas, um anjo enviado voou por cima das nossas cabeças
Estava jogando xadrez e deu um xeque mate
Hoje sou tudo, tudo
Às vezes lembro daquela estalagem no inferno
Lembro de Penseroso, de Macário e de Satam
Um cheiro de enxofre cobre o ambiente
Hoje a cidade me parece mais bonita
Os dias foram lavados
Com as horas do tempo, do vento,
Zum mmm zum mm zum m fiiaaalll
mas houve também bastante alegria
naquele Clube Intermunicipal
Ah! Quantos flertes e casais coladinhos
Nesse ponto a cidade era prelúdio de um calor
De um retrato de tempos tão mansos e barulhentos
O CISTE – era o nome de todas as bocas
As tertúlias nos aguardavam em descobertas
De traição, de beijos, de amasses...
Repúdio das línguas dos adultos
O clube era de cores de adolescentes, de jovens
A nós, o que acontecia por lá
Pais alheios, água e óleo não se misturam
Se enganam na Faculdade, na FAFOPST
A Faculdade era um misto de não sei o quê
De um nada, de uma dor estomacal, nos rins
De um embaraço em não viver
De um suicídio absoluto sem morrer
De uma fuga de abraços e beijos
Teatro ainda vazio, história por escrever
Satan batendo a minha porta
A minha casa os ratos haviam comido uma parte
Só sobrou minha cama, minha estante, meus livros
E a música que me ajudava a viver
Na Faculdade pedras prendiam
Amigos não se encontravam
Era uma felicidade de pierrot
Era um desfile de coringas
Anestesia, fora de ordem, fora de tempo
Até que a faculdade, ela desmoronou
Os escombros por cima dos ombros
Os pais tiveram de levar (um assombro)
Meus pensamentos farfalhando
Pensava na Concha Acústica, no encontro logo mais
A Concha tomou parte da vida, da história, dos amores
Quantos amores? Foram tantos
E a Concha escutava o sussurrar
Quero tua boca, teu beijo, teu cheiro, teu sexo
Teu suor, tua poesia e o calor dos seios
dos poros exalava o cheiro agreste dos meninos
O cheiro dos meus pensamentos misturava-se com
O cheiro da noite na Concha Acústica
Uma doce poesia selvagem
A Concha pasmada, estática, fria
Queria amar mas, era dura, de concreto e preconceituosa
Eu não, sempre fui maleável (sou fúria e paz)
Mas, a minha nudez ficou no Internato Santa Doroteia
Editora do Brasil/SA. 4. ed..São Paulo:1996.

CONCLUSÃO:

Continuo as observações dos sentidos pois, não é uma busca, é uma presença constante como a visão, o tato, o paladar e o olfato. Tento ampliar esse olhar e buscar respostas que me auxiliem a compreender a formação social da nossa gente. Fica, pois, a cargo do visitante - ou de outro serra-talhadense que se distanciando a descubra – apreciar a cidade tão caracteristicamente nordestina: equilibrada pela distinção da índole altiva da sua gente e pela esperança dessa mesma gente que prospera pela inteligência e pelo trabalho.
Não espero que meus sentidos sejam entendidos por você que acabou de ler estes escritos. Tenho esperanças no futuro.
Agradeço imensamente a Wellington Morbeck Galvão, Nivaldo Assis, Robson Britto e especialmente a Christianne Lira, grande incentivadora do meu trabalho de escritora e Maria do Carmo da Silva Santana.

Lá no fundo está a vida, o segredo é vivê-la. Abra a sua caixa de email, dê um clique em cima do nome “escrever mensagem”, coloque o e-mial do destinatário onde o cursor irá pulsar como o sangue, que bombeia a vida dentro das suas veias. Arraste o cursor um pouco mais pra baixo e escreva a mensagem. Mas cuidado, às vezes escrevemos nossos mais recônditos segredos, aqueles que não queremos revelar pra ninguém. Às vezes deixamos essa marca nas entrelinhas. Há pessoas que sabem ler a vida nas linhas das mãos e outras nas entrelinhas de um email.
Que mais quer, que mais quer? Envi-o depressa, basta um clique, pronto, tão rápido como um piscar de olhos. Depois, você não sabe se a pessoa sabe ler as entrelinhas e se souber você não sabe se deixou transparecer nas entrelinhas aqueles segredos recônditos. E lá no fundo refugia-se a dor da morte de não ser entendido mas, a vida pulsa agora e o cursor está piscando. Confira a caixa de correio todos os dias basta um clique, e saberá se sua alma fora codificada e os códigos do seu ser exposto para alguém que sabe ler o que está além do que foi escrito. (Helena Conserva - inspirado em:
“Instrução para dar cordas no relógio”, de Júlio Cortáza)

“Conheço Helena desde toda minha vida, pois ela sempre foi única, e lá no fundo todas nós queríamos ser iguais a ela. Menina decidida, bem a frente do nosso tempo de meninas do interior.
As lembranças mais forte que tenho de Helena, são os cabelos longos e pretos e ela bem branquinha. Tinha 14 anos, era vegetariana, tinha um cachorrinho chamado Hisbrite e já era poetisa. Ela estudou em colégio interno, e quando vinha para Serra Talhada, ficávamos todas deitadas esperando ela contar o que acontecia por lá. (estudar em colégio interno era privilégio para poucos)
Helena também nos deu um grande susto, sofreu um acidente de carro e como eu sempre fui sua fã, guardei as roupas que ela usava no momento do acidente para entregar a ela quando a mesma voltasse, pois sabia que ela voltaria. Aquele dia ficou tatuado na minha cabeça, primeiro porque não deixei a minha irmã ir junto, pois alguma coisa me dizia que aquele dia não acabaria legal. Naquele dia havíamos ido para o último ensaio da nossa crisma.
Só que dias antes no quarto perto da cozinha da casa de sua mãe, ela nos disse, brincando, que sabia ler cartas ciganas, e como tudo que ela dizia nós acreditávamos, pegou o baralho e disse ter tirado a carta da morte. Eita! menina que gostava de nos fazer medo. E ainda estávamos na igreja quando chegou à notícia do acidente, e a carta da morte não saía de minha cabeça. Foram horas tristes mas, posso dizer que você Helena, fez parte dos melhores anos da minha vida”. (Lucilene Terto Magalhães – depoimento orkut março de 2007 - Recife)



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

1 - LINS, Ulysses de Albuquerque. Um Sertanejo e os Sertões. São Paulo:J. Olympio, 1957.

2 - Wikipédia. Mídia eletrônica

3 - FERRAZ, Marilourdes. Oficina de Cerâmica Francisco Brennand: usina de sonhos. Recife: AIP,1999.

4 - FILHO, Andrade de Lima. - China Gordo - Agamenon Magalhães e sua época. Editora Universitária. Recife.1976.

5 - WILSON, Luiz. Roteiro de Velhos e Grandes Sertanejos. Volume III. Coleção Biblioteca Pernambucana de História Municipal. Centro de Estudos de História Municipal; Recife; 1978.

6 – OLIVEIRA, Lelia Vitor Fernandes de. O Exotismo nos nomes.Gráfica Modelo; Feira de Santana. 2000.

7– LINS, Daniel. Lampião: “corpo, estética e ambigüidade trágica”. Cadernos de Subjetividade. Núcleo de Estudos e Pesquisa da Subjetividade do programa de Estudos de Pós-graduação em Psicologia Clinica da PUC-SP,1998.

8 – SCHNEIDERMAN, Stuart. Jacques Lacan, a morte de um herói intelectual. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 1998.

9 – BOFF, Leonardo. Crise: oportunidade de crescimento. Campinas: Verus, 2002.

10 – ILARI, Rodolfo. Lingüistica românica. São Paulo: Ática, 1992.

11 – VEIGA VEIGA, Cláudio. Gramática Nova do Francês






PUBLICAÇÕES

Marchas Recíprocas – 1998
Paraíso com nome de Feira – 2000 (3ª Edição)
Feira de Santana seu passado, seu presente e seu futuro – Antologia – 2000
Serra Talhada numa perspectiva histórica – Livrete - 2001
Lampião, dançava, cantava, compunha e foi poeta – Ensaio /Livrete 2002
A vida de Alberto Boaventura – Livrete - 2002
Grandes escritores da Bahia – Antologias - 2003
Memorial poético de Feira de Santana – 2003 – Coletânea
Vida social e genealógica dos povoadores do Distrito de Maria Quitéria – 2004
Homme de la mancha – 2004 - poesias
Terra Moça – 2005 - Pesquisa
Literatura e Artes plásticas em Feira de Santana – 2007 – Antologia textos
A cidade e seus sentidos – 2008
Selecta de poesia – antologia poética – 2008
Dicas e Redação – 2009

No prelo:
Contos de retratos
A República dos palmares
Além do câncer (nome provisório)


A cidade e seus sentidos