Saturday, June 6, 2009

A cidade desnuda-se, transfigura-se






Autora: Helena Conserva

Cheguei hoje a Serra Talhada, 28 de julho de 2001. A cidade está mais linda do que nunca. O tempo mudou, literalmente. Não chega a fazer frio, seria querer demais, mas exibe uma atmosfera de paz e equilíbrio, nem quente nem frio, estável. Nesta manhã, na casa de meus pais, encontrei uma ponta de mim que ficou esquecida num canto qualquer da sala de estar, há dez anos desde quando fui embora. É aqui que reencontro o meu passado, que choro e que sorrio daquela época, tempos difíceis quando a gente tem que entender que nem tudo pode inscrever-se com a tinta dos nossos querer. A verdade tem que ser conquistada, mas eu, eu não tinha essa lucidez... a cidade me amadureceu e disse quem eu era. Eu não era quem pensava que fosse nem quem pensavam que eu fosse. Era eu alguém além de mim e a cidade me expeliu, mas ela ainda não era telúrica, não possuía ainda seus jardins, nem seus parques, nem sua educação primorosa. Os serra-talhadenses ainda não eram destaque no Brasil e no mundo. Ainda não era nem prelúdio desta expressão artística, desta inventividade popular. Não. Nesta época era simplesmente uma cidadezinha tomada pelos falares dos olhos da sua gente. A cidade mostrou meus limites e eu entendi minha condição de oprimida e todas as regras da sociedade patriarcalista e as tantas outras, também foram compreendidas por mim. Em meio às caatingas nordestinas eram regras de mão única. Nada podia ser feito nem ninguém podia fazer nada, tínhamos que aceitar a condição... não lutar pelos seus direitos, os direitos que me assistem e me cabem e me são negados a toda hora, a todo instante e, ainda são, desde então. Não foi a decisão de sair vida a fora que mudou alguma coisa. O nosso universo ainda é masculino. Mas agora, consigo pelo menos respirar. Foi tudo muito difícil porque eu já era mulher. Preciso também dizer que não foi da noite pro dia que fui mulher, nem nasci mulher, essa condição eu fui conquistando conforme me descobria, conforme perambulava aqui, alhures. Conforme a cidade me mostrava.
Mas, essa cidadezinha com pouco mais que setenta mil habitantes, incrustada no sopé de uma serra, no alto sertão de Pernambuco, lugar quente, seco, este é o meu lugar. Amo tanto o meu lugar seco e árido. Mesmo assim, com toda secura, vingamos. .
Serra Talhada é para mim um lugar de saudades, uma delas é de minha avó materna, Josefa Maria da Conceição, filha de Antônia Linda das Flores e de Manoel Bezerra da Silva. Ela nasceu no início do século XX, 1918, quando as mulheres viviam inspiradas no romantismo, “envolto um véu de tule bordado com ponto-cheio, uma toalha de renda e uma colcha de crivo. O véu significava a pureza, o casamento, a realização maior, a toalha da mesa a alegria de cozinhar para o seu homem, cuidar dele num misto de mãe e mulher. A colcha, a parte principal, onde na cama a pureza seria desfeita e junto dela a alegria de ter se guardado, o prazer de se dar”. Algumas fugiam, outras casavam com festas, outras sem, não importava, o que importava era o sonho romântico de casar, ter seu homem, sua casa, seus filhos, manter esse casamento a qualquer custo, era um padrão, uma imposição cultural. O sonho de toda mulher.
Por volta de 1937, quando mamãe nasceu no mesmo século, algumas mulheres já almejavam uma formação, de professora. Ser mulher era muito mais difícil. Graças a Deus eu não nasci nesse tempo, porque nunca me submeti a padrão nenhum e não me submeteria nem que tivesse que pagar com a própria vida.
No final do mesmo século, 1986, eu já era mulher, a minha cidade mantinha ainda o autoritarismo patriarcal e um código de ética a ser cumprido a risca, somente pelas mulheres, os homens não. O projeto de vida se tornava frustrante para muitas mulheres românticas que queriam apresentar para a sociedade um casamento perfeito, marido exemplar, mas, além de déspota o seu digníssimo também tinha a lógica fálica. Instintos para justificar. Nesse contexto, as mulheres achavam que falharam na escolha, que não tiveram sorte, então passavam a apostar no casamento das filhas. Queriam orientar às meninas a encontrarem o homem certo, já que elas não souberam escolher. Vinham as brigas, os desentendimentos porque as meninas queriam ter o livre arbítrio. A transgressão masculina virou regra de algumas sociedades, marca de macho, de virilidade, de instinto. Os homens têm que se sentirem homens ora! É preciso muita força e rebeldia excepcional para mudar essa lógica, ainda mais, porque ela é sustentada pelas mulheres. Criamos as regras da sociedade em que vivemos e lutamos por derrubá-la. Não aceito esse projeto de vida definido para a mulher sertaneja. Não aceito esta sentença brutal. Por isso violento a minha cultura nordestina. Sou cruel com meus princípios. Sou cruel mesmo, não consigo disfarçar. Neste sentido, dei muito trabalho a meus pais que planejaram pra mim um casamento perfeito, três filhos, a profissão de professora. Uma vida digna de dona de casa, mãe e esposa, comadre também. A cidade também esperava isso de mim, mas, eu não correspondi a esse ideal romântico, predestinado pela nossa cultura. Casar é vocação. Vocação de luta com intenção de manter até o fim. Nesse contexto, o casamento absorvido pela cultura já não importava mais, o que ele representava era mais importante. O casamento representava estabilidade. Representava a mulher de verdade, a que não fracassou, a que conseguiu casar e manter, muitas das vezes as aparências. A mulher separada e a solteira eram vistas como perdedoras infelizes. As separadas também representavam a chaga da destruição, das doenças, da vulgaridade, o feio, a lepra. Representava também ameaça. As separadas eram as excluídas, as párias da sociedade. A má sorte para uma mãe era ter a filha separada. Na maioria das vezes porque os parceiros arrumavam outra mulher. Essa outra era vista como uma vencedora pois conseguiu fisgar um marido e casar, casar era tudo. Casar era tirar a sorte grande. Era ter nome. Essa outra entrava para a sociedade porque agora tinha um homem, tinha nome, embora tenha usado meios ilícitos para fisgar esse homem, o que não importava. A outra, a ex, a que foi deixada, coitada, era agora uma leprosa, uma largada e seus filhos, “os bichinhos, os coitadinhos”, filhos de pais separados. Esse é um pequeno mundo que não me cabe, ainda mais porque estive no inferno e constatei que lá é melhor do que viver sob esse estigma. Encontrar a liberdade, debandar pela vida a fora sem saber o que me espera. A única saída para uma jovem mulher sem marido. Eu esperava poder ser quem eu era, uma mulher separada. Sendo eu própria, muitas vezes, ignorada para mim mesma, porque achava que as regras da sociedade que me punia, eram as que valiam. Precisava fugir da cidade, da pequenina cidade inflamada pelo preconceito, subjugada pela cultura. Eu estava decidida a sair com a minha lepra, contribuir para os meus, a felicidade de viver longe de mim, da ameaça que eu representava. Na Bahia, enxerguei uma luz tão forte, tão intensa, azulada, que protegi meus olhos com o antebraço. A luz me ofuscou. O carro entrou na claridade como que rasgasse aquele véu branco, incandescente e nós descemos dele porque não enxergávamos mais nada. Veio ao nosso amparo mãos de pessoas imaginárias que se dirigiram a mim, eram artistas. A brisa leve daquela manhã, entrou em minhas narinas revigorando todo o meu corpo. Senti alguém feliz além de mim.
Descobri meus valores, descobri os valores da minha cidade e, acima de tudo, descobri quem eu era, em outra cidade, em outro estado. Precisamente em Feira de Santana, no estado da Bahia. Daí o supremo valor do escritor, do poeta, do artista como transmissor de sentidos.O escritor é um investigador do escaninho dos seus próprios pensamentos e também dos seus sentimentos.Naquela ocasião, descobri as cidades.
A cumplicidade que há entre os estados da Bahia e de Pernambuco é intrínseca. Não só as estradas mas, as histórias se entrecruzam. Foram os vaqueiros da Casa da Torre de Garcia dÁvila que da Bahia iniciam o povoamento da região. Mais tarde, Agostinho Nunes Magalhães e seu irmão Joaquim e alguns colonos portugueses que cruzaram com os aborígines dando origem ao povoamento da zona do Pajeú. (LINS, 1957) (1)
Dois estados, Bahia e Pernambuco, que se distanciam no espaço físico e se unem pelas convergências históricas. Dois estados que se cruzam a todo instante como macho e fêmea no cio. Currais debrasileiro era falar de seca, gente faminta, êxodo, um quadro de homens, animais e plantas morrendo de inanição. Agamenon queria reverter essa situação e reverteu. Elaborou plano, traçou rumos. Queria justificar o novo regime com realizações que elevassem Pernambuco na Federação Brasileira. Um Pernambuco que viesse a ser sempre leão do Norte. 'Pernambuco não se deixará humilhar'. Era uma expressão que sempre usava.
Quanta honra pertencer à estirpe desse homem. O meu filho, Luiz Henrique Conserva Dias Parente, sendo descendente dos Parente das cidades de Salgueiro, em Pernambuco e de Barbalha, no Ceara, é descendente de Agamenon Magalhães. “D. Antonia Parente de Godoy, mãe de dr. Agamenon, era filha de Antonio Manuel de Godoy e de sua esposa D. Rosa Parente de Godoy, da família Parente de Salgueiro e de Brabalha” (WILSON, 1978) (5)

No comments:

Post a Comment